O planejamento e o monitoramento da residência de dados são tarefas importantes que ajudam a garantir a conformidade com leis de segurança e privacidade de dados em constante evolução em todo o mundo. Como as leis de proteção de dados geralmente variam de acordo com a jurisdição, a localização geográfica dos ativos de dados de uma organização pode determinar quais requisitos legais se aplicam.
Os requisitos legais variam desde regras sobre a obtenção de consentimento para a coleta de dados até prazos para o armazenamento de dados. Além disso, alguns países impõem requisitos de residência de dados às organizações que operam em seus territórios. Essas exigências determinam a localização dos dados, ou seja, estabelecem que eles devem permanecer em um local específico, permitindo transferências limitadas ou proibindo-as totalmente.
As empresas estão cada vez mais recorrendo a soluções de software para determinar e rastrear a residência de dados para ajudar a garantir a conformidade regulatória. Essas soluções monitoram os fluxos de dados entre diferentes locais, inclusive entre fronteiras nacionais, para garantir que os dados não violem os requisitos regulatórios em seus vários destinos.
Mantenha-se atualizado sobre as tendências mais importantes (e intrigantes) do setor em IA, automação, dados e muito mais com o boletim informativo Think. Consulte a Declaração de privacidade da IBM.
Para entender a importância da residência de dados hoje, é útil avaliar a evolução tanto do armazenamento de dados quanto da proteção de dados em todo o mundo.
No início dos anos 2000, a infraestrutura de nuvem moderna e os provedores de serviços em nuvem transformaram o cenário do gerenciamento de dados e do processamento de dados. O acesso sob demanda a servidores remotos permitiu que as empresas deixassem de depender exclusivamente da capacidade de processamento e do armazenamento disponíveis em suas próprias instalações. Em vez disso, as empresas poderiam aproveitar data centers em diferentes países operados por provedores de nuvem como Amazon Web Services (AWS), Microsoft Azure e Google Cloud.
Essa infraestrutura baseada na nuvem oferece escalabilidade rápida e flexibilidade, bem como menor latência para casos de uso como edge computing (onde os recursos de computação devem estar localizados próximos ao local de criação dos dados). À medida que mais empresas incorporam cargas de trabalho de IA, o uso do data center só crescerá, com a demanda por capacidade de data center projetada para quase triplicar até 2030, de acordo com uma pesquisa da McKinsey de 2025.1
À medida que os avanços tecnológicos permitiram que as empresas coletassem, processassem e armazenassem mais dados de clientes, os governos começaram a criar leis de privacidade de dados para proteger os consumidores. A União Europeia liderou o caminho na regulamentação da coleta e proteção de dados, com a Data Protection Directive de 1995 e, posteriormente, com o histórico Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), que entrou em vigor em 2018. O RGPD estabeleceu requisitos de como as organizações protegem dados pessoais e estabelece os direitos dos residentes da UE, também conhecidos como "titulares de dados", sobre a coleta, uso e posse de dados pessoais.
Países fora da UE, como Austrália, Brasil, Canadá, China, Índia, Japão, África do Sul e Emirados Árabes Unidos, acabaram promulgando suas próprias proteções de dados. Atualmente, quase 80% dos países têm leis de privacidade e proteção de dados.2
Em muitos casos, os esforços de proteção de dados dos legisladores também incluíram leis de localização de dados, medidas que impedem as organizações de transferir dados para fora de uma região especificada e exigem que elas mantenham a residência de dados nessa região. Além das preocupações com os direitos à privacidade, os defensores da localização de dados também apontavam questões de segurança e cibersegurança: dados confidenciais armazenados fora de seu país de origem poderiam ser mais difíceis de acessar pelas agências de segurança desse país e, ao mesmo tempo, ficar vulneráveis à vigilância estrangeira e a violações de dados cometidas por organizações criminosas internacionais.
Os requisitos de localização variaram desde a proibição total de transferências internacionais de dados pessoais (caso da Rússia) até a limitação de transferências de determinados tipos de dados, como dados de saúde confidenciais (caso da Austrália).3 De acordo com a McKinsey, três quartos dos países implementaram regras de localização de dados.4
A intersecção dessas tendências: o crescimento da computação em nuvem e o desenvolvimento de leis de privacidade e localização de dados em diferentes países, tornou fundamental que as empresas soubessem exatamente onde seus dados residem em todos os momentos. Atualmente, as organizações têm a tarefa de determinar se seus ecossistemas de dados em crescimento, espalhados por data centers ao redor do mundo, atendem aos requisitos de conformidade nas jurisdições relevantes. E determinar quais leis se aplicam a quais ativos de dados significa determinar e rastrear a residência dos dados regulamentados.
Residência de dados e soberania de dados são termos distintos, mas intimamente relacionados. Enquanto a residência de dados se refere à localização específica dos dados, a soberania de dados é o princípio de que as nações têm autoridade legal e regulatória sobre os dados que são gerados ou processados dentro de suas fronteiras. Em essência, a residência de dados é um conceito geográfico, enquanto a soberania dos dados é legal.
A residência de dados é geralmente fundamental para determinar a qual país se aplicam as leis de soberania de dados — e, dependendo do fluxo de dados, tanto a residência quanto a soberania dos dados podem abranger mais de um país.
Por exemplo, uma empresa sediada nos EUA deve cumprir os requisitos do RGPD se realizar coleta e armazenamento de dados em um estado-membro da UE. Porque, nesse cenário, os dados teriam residência nesse estado, o que significa que a UE teria a soberania dos dados. Se essa empresa transferir os dados para processamento por uma app de SaaS no Canadá, os dados também terão residência naquele país. Isso, por sua vez, estenderia a soberania dos dados ao Canadá e provavelmente exigiria a adesão à Personal Information Protection and Electronic Documents Act (PIPEDA).
O cenário global de leis e regulamentações relacionadas à residência de dados e à localização é complexo e está em evolução, com algumas regras mais restritivas do que outras. Os pesquisadores da McKinsey classificam as medidas de localização em quatro categorias.5
Diferentes jurisdições podem incluir requisitos diferentes, com alguns se aplicando apenas a determinados tipos de dados confidenciais.
As empresas correm o risco de sofrer uma série de consequências se não rastrearem e gerenciarem a residência de dados em todo o seu armazenamento.
As empresas podem estar sujeitas a multas elevadas quando infringem as leis relacionadas à residência de dados. Por exemplo, em 2023, a UE aplicou uma multa sem precedentes de EUR 1,2 bilhão (cerca de USD 1,4 bilhão) à Meta por transferir dados de usuários europeus para os Estados Unidos de maneiras que não eram compatíveis com o RGPD.
A visibilidade da localização e da movimentação dos dados é essencial para manter a segurança de dados, pois ambientes diferentes exigem medidas de segurança diferentes. A segurança da nuvem deve lidar com os desafios de rastrear o acesso a dados em serviços de nuvem: serviços que podem ser acessados fora das redes corporativas. Segundo o Relatório do Custo das Violações de Dados de 2025, do IBM Institute for Business Value, as violações de dados que envolvem múltiplos ambientes custam, em média, USD 1 milhão a mais para serem resolvidas pelas empresas do que as violações de dados em ambientes locais.
Empresas que ganham destaque na mídia por problemas relacionados à residência de dados e conformidade regulatória podem sofrer danos à reputação e perda da confiança do cliente, visto que os consumidores estão cada vez mais focados na privacidade de dados. Uma pesquisa global de 2024 com consumidores, realizada pela Cisco, descobriu que mais da metade dos entrevistados estava ciente das leis de privacidade de dados de seus países.6
Quando as empresas não gerenciam a residência de dados para cumprir as regulamentações locais, elas podem perder a capacidade de fazer ou expandir negócios em determinadas regiões. Por exemplo, em 2021, o Reserve Bank of India (RBI) anunciou que a MasterCard havia violado uma regra que exigia que dados relacionados a sistemas de pagamento fossem armazenados apenas na Índia. Como resultado, os órgãos reguladores proibiram a MasterCard de emitir novos cartões de crédito, débito e pré-pagos no país.7
As empresas, especialmente aquelas em setores regulamentados com fluxos de dados transfronteiriços, estão utilizando softwares para rastrear a residência de dados e garantir a conformidade regulatória em diferentes jurisdições. O tipo mais comum de solução é o gerenciamento de postura de segurança de dados (DSPM).
As plataformas de DSPM localizam dados e rastreiam fluxos de dados em recursos locais e na nuvem. Elas podem encontrar e classificar dados sensíveis, além de identificar riscos de não conformidade com os frameworks regulatórios aplicáveis. Em outras palavras, um DSPM pode alertar as organizações quando dados armazenados ou processados em um determinado país não estiverem sendo tratados de acordo com as leis desse país.
Muitas soluções de DSPM também fornecem instruções passo a passo para remediação de riscos potenciais, permitindo que as empresas lidem com questões de residência e soberania de dados antes que elas se transformem em problemas dispendiosos.
1 “The cost of compute: A USD 7 trillion race to scale data centers.” McKinsey. 28 de abril de 2025.
2 “Data Protection and Privacy Legislation Worldwide.” UN Trade and Development. 16 de outubro de 2025.
3 “History of Data Localization.” Carnegie Endowment for International Peace. 1º de abril de 2021.
4.5 “Localization of data privacy regulations creates competitive opportunities.” McKinsey. 30 de junho de 2022.
6 “Cisco’s 2025 Data Privacy Benchmark Study: Privacy landscape grows increasingly complex in the age of AI.” Cisco. 2 de abril de 2025.
7 “Reserve Bank of India takes supervisory action on Mastercard Asia/Pacific Pte. Ltd.” Reserve Bank of India. 14 de julho de 2021.