5G

O 5G precisa ser “aberto” e transparente

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Artigo IBM Policy Lab* 

A pandemia de COVID-19 trouxe à tona o quanto a conectividade é vital para a sociedade e para a economia. E a adoção generalizada das tecnologias 5G tem o potencial de tornar a conectividade em uma ferramenta ainda mais poderosa, transformando completamente a maneira como vivemos e trabalhamos. O aumento de velocidade e capacidade das ofertas de rede 5G não só poderá melhorar as tecnologias já existentes, como, por exemplo, o streaming de vídeo, mas também permitirá a adoção de aplicações totalmente novas que as redes atuais ainda não são capazes de suportar.

Com o 5G, será possível explorar soluções para diversas situações que exigem altas taxas de transferência de dados. Na indústria, por exemplo, pessoas e máquinas poderão explorar ainda mais o potencial da inteligência artificial, com o reconhecimento visual e as percepções acústicas, assim como ampliar o uso de sensores IoT próximos da linha de produção para checar a qualidade da operação. No varejo, as redes de altíssima velocidade poderão oferecer experiências imersivas, como o uso de sistemas de realidade aumentada e análise de big data. E para os usuários como um todo, poderá proporcionar muitos benefícios, entre eles novas formas de mobilidade, monitoramento dos espaços, segurança pública e privada, casas, cidades, fábricas, estádios, veículos, lojas, fazendas e portos inteligentes; e no campo da educação, a realidade virtual e aumentada poderá habilitar novas maneiras de aprendizagem.

É possível afirmar que estamos vivendo um momento extremamente crucial na história da tecnologia, ainda mais após todo o processo de aceleração digital e transformação exigidos durante o período da pandemia de COVID-19. As decisões que tomarmos hoje sobre como as redes 5G serão construídas em nosso país terão um impacto sem precedentes na transformação dos negócios. E para garantir que esse impacto seja positivo e explore todo o potencial da tecnologia 5G, ela deve ser baseada em interfaces abertas e soluções de computação em nuvem orientadas por código aberto, que permitam que os mais variados provedores possam competir, por igual, para oferecer as soluções mais inovadoras, seguras e econômicas.

Muitos dos benefícios das redes 5G vêm de sua maior dependência no uso de softwares do que o requerido pelas gerações anteriores de tecnologia sem fio. Nas redes 5G, o software pode gerenciar operações e executar tarefas previamente controladas por hardware, utilizando a virtualização de rede e a computação em nuvem. Por exemplo, na infraestrutura atual das comunicações sem fio, o desempenho da rede depende em grande parte das limitações técnicas e do funcionamento adequado do hardware específico. Porém, com a virtualização da rede, as redes 5G não são tão limitadas pelo hardware, pois o software pode emular o desempenho de diferentes tipos de hardware especializados e ser atualizado e reparado remotamente.

Estas aplicações, particularmente a computação em nuvem, podem permitir o uso da inovação em larga escala e também suportar diferentes tipos de aplicações que antes as redes 4G não atendiam. E neste contexto, o uso de softwares de código aberto é fundamental, já que permitem controlar e examinar cada aspecto do código e mudar o que não está funcionando, trazem maior estabilidade devido à menor necessidade de manter e substituir hardware, e também aportam maior resiliência, já que permitem a inspeção e correção de problemas, erros ou falhas. Além disso, as interfaces abertas podem garantir que todos os componentes de uma rede 5G possam interoperar facilmente de ponta a ponta, proporcionando maior competitividade. Assim, a combinação de interfaces abertas com as tecnologias de código aberto orientadas por nuvem pode beneficiar substancialmente o ecossistema 5G.

Infelizmente, alguns líderes do mercado de telecomunicações confiam e continuam a construir tecnologias fechadas que impedem a integração de hardware ou software de diferentes fornecedores. Isto cria um ponto de inflexão global na disponibilidade de tecnologias 5G fundamentais.

Enquanto a IBM e outras companhias lideram o desenvolvimento e a implementação de tecnologias abertas para o 5G, o governo pode ajudar a acelerar esta transformação. Os formadores de políticas públicas devem agir desde já para acelerar o desenvolvimento e a adoção dessas redes abertas em benefício dos consumidores, da concorrência, da economia e da segurança nacional.

E antes de tudo isso, os governos precisam desenvolver Estratégias Nacionais de 5G, promovendo a adoção das arquiteturas abertas e das tecnologias de código aberto em nuvem. Isto capitalizaria a força das indústrias de desenvolvimento de software e computação e garantiria que tanto pequenas como grandes empresas pudessem ser globalmente competitivas no 5G.

Como parte das Estratégias Nacionais de 5G, os governos também devem usar as autoridades de promoção e os mecanismos de aquisição existentes para fazer avançar as tecnologias 5G abertas. Por exemplo, no Brasil:

  • A ANATEL poderia usar seu poder regulador para estimular amplamente a discussão e promover as tecnologias 5G abertas para aumentar a sua conscientização e adoção. Do mesmo modo, seria importante buscar incentivos para que se desenvolvam políticas públicas de estímulo ao financiamento da compra de equipamentos de telecomunicações 5G que utilizem arquiteturas abertas.
  • Os Ministérios da Economia e da Defesa poderiam fazer uso de seu poder de compras para acelerar seus pilotos de infraestrutura 5G e dar preferência às soluções 5G que utilizam arquiteturas abertas, especialmente O-RAN e tecnologias de código aberto em nuvem.

Além disso, os governos precisam incentivar e acelerar a competitividade em 5G.  O Governo Federal poderia:

  • Acelerar a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias 5G abertas por parte da indústria, agências de pesquisa e academia. Isto poderia incluir incentivos financeiros diretos para organizações que lideram estes esforços, tais como subsídios financiados por recursos provenientes de leilões ou outras fontes, ou via empréstimos com juros baixos ou sem juros para investimentos de 5G; incentivos fiscais, tais como um aumento do crédito fiscal para pesquisa e desenvolvimento (P&D) especificamente para investimentos de 5G; e investimentos em capital humano. Isto também poderia incluir uma ênfase em interfaces abertas nas agências federais de pesquisa e incorporar o uso de interfaces abertas em projetos-piloto de 5G. Um sistema consistente de P&D pode ajudar a promover a inovação em rede, bem como desenvolver incentivos para ajudar a garantir um leque diversificado de fornecedores confiáveis a longo prazo.
  • Apoiar a rápida implementação de tecnologias abertas de 5G. Isto poderia incluir concessões e empréstimos sem juros para empresas e municípios para a implantação de redes 5G construídas com arquiteturas de código-fonte aberto. Isto também deveria incluir o financiamento de mecanismos de cooperação apoiados e administrados com parceiros internacionais confiáveis para fomentar o desenvolvimento de um mercado robusto e competitivo para as tecnologias 5G abertas.

Se o governo se mover rapidamente para acelerar a adoção de arquiteturas 5G livres, abertas e transparentes, ele pode maximizar os benefícios que esta tecnologia pode oferecer, tanto para os consumidores, como para a segurança nacional e para a economia, da qual a conectividade é insumo básico. Mas se não o fizerem, as arquiteturas fechadas sufocarão a inovação e a concorrência, aumentarão os custos e colocarão em risco a segurança e a resiliência das redes 5G.

Para tal, as entidades reguladoras e o governo devem olhar as telecomunicações como uma habilitadora essencial para os negócios, para o aumento de produtividade e também para a geração de empregos. Por isso, é importante fomentar políticas e regulamentações que assegurem às empresas brasileiras uma isonomia competitiva neste campo. Um bom ponto de partida será o leilão das frequências 5G, previsto para 2021, de modo a garantir uma distribuição adequada do espectro para que as operadoras possam atuar sem gerar dominâncias. Outra iniciativa que pode ajudar a impulsionar o desenvolvimento é direcionar a carga tributária dos serviços de telecomunicações para estimular a expansão da rede 5G, o desenvolvimento de dispositivos e tecnologias para a Internet das Coisas, assim como a evolução e adoção de padrões abertos.

Muitos países estão bem posicionados para serem competitivos em 5G, mas isso só será garantido se os formadores de políticas tomarem medidas para garantir que o futuro do 5G seja, de fato, aberto.

O desafio dos sistemas fechados

Os sistemas fechados:

  1. Impedem drasticamente a competitividade e a inovação. Inibir terceiros de desenvolverem ofertas que funcionarão com os sistemas 5G impede o uso de aplicações plug and play, e esta falta de pressão competitiva reduz os incentivos para que as empresas em operação inovem.
  2. Aumentam o lock-in de fornecedores, o que eleva os custos. O lock-in de fornecedores pode forçar os clientes a continuarem usando esses sistemas fechados para que não paguem altos custos de comutação para substituir toda a rede existente.
  3. Colocam a confiabilidade em risco. Se uma rede 5G depender muito da tecnologia fechada de apenas um fornecedor, a segurança e confiabilidade da rede é posta em risco caso o fornecedor se torne incapaz de manter essas tecnologias.

O problema dos sistemas fechados é particularmente evidente na camada da rede de acesso via rádio (RAN) na ponta das redes 5G. A rede de acesso por rádio depende de várias partes de hardware e software, que atuam em conjunto para promover a conectividade entre dispositivos como smartphones, equipamentos conectados, sensores e o núcleo da rede. O uso de arquiteturas fechadas impede que a tecnologia trabalhe de forma simples, contínua e segura junto com a tecnologia de qualquer outro fornecedor, limitando a inovação e a concorrência na camada RAN.

Felizmente, muitos na indústria estão se unindo em torno da ideia de que a abordagem do 5G aberto é vital para os negócios, assim como é vital para a segurança nacional e a economia. As tecnologias abertas foram fundamentais para o sucesso de gerações de avanços tecnológicos, incluindo a própria Internet. E agora, empresas novas e antigas, grandes e pequenas, de todas as regiões do mundo estão utilizando esta mesma abordagem no espaço do 5G, tanto na camada RAN quanto além dela, com a esperança de impulsionar ainda mais inovação e crescimento econômico. A IBM, por exemplo, juntamente com muitas outras empresas, está comprometida em adotar o padrão Open Radio Access Network (O-RAN) como base para a importante camada RAN das redes 5G.

O padrão O-RAN é um multiplicador, pois permite um crescimento exponencial em 5G ao promover uma concorrência saudável nas comunidades de software, pois os colaboradores podem definir especificações abertas para que componentes de diferentes empresas possam trabalhar juntos para formar a melhor das soluções. Além disso, arquiteturas 5G abertas como o padrão O-RAN são um convite à livre concorrência, já que impulsionam a inovação e oferecem flexibilidade para implementar redes muito mais adaptáveis para o uso nos negócios.

*Texto original de Joshua New, Executivo de Políticas de Tecnologia da IBM. Adaptações de Fabio Rua, Diretor de Relações Governamentais da IBM América Latina e Thiago Moraes, Arquiteto de Soluções da IBM Brasil.

 

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