Blockchain

Como uma “cadeia de blocos” pode transformar o mundo?

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Por Manuel O’Brien

Muitas pessoas já ouviram falar sobre blockchain, especialmente por sua ligação com as criptomoedas, entre elas, a famosa Bitcoin. Entretanto, é importante ressaltar que criptomoedas e blockchain são coisas distintas: as criptomoedas são moedas digitais, enquanto que blockchain é o protocolo que torna possível sua circulação.

As criptomoedas (Bitcoin, Ethereum, etc.), utilizam o blockchain para possibilitar um sistema de pagamento peer to peer (“entre pares”, ou “entre iguais”), que ocorre através de uma estrutura digital em que o registro das transações é armazenado em “blocos” fechados por criptografia. Este processo garante uma assinatura digital em cada um de seus blocos, que dificilmente podem ser mudados ou manipulados.

Vamos nos imaginar dentro deste processo: juntamos cada um desses blocos de informação; distribuímos cada peça em uma rede de acesso comum (que pode ser privada ou pública), e então formamos uma cadeia de blocos, ou blockchain.

Agora, um passo adiante: adicionamos um código digital a qualquer coisa ou conceito que quisermos, e vamos imaginar um livro de transações que será escrito de forma colaborativa entre os envolvidos (pessoas, instituições e organizações, por exemplo) que possuem interesse comum nesta coisa ou conceito que pensamos. A partir do momento em que todos os envolvidos validam que aquele registro é verdadeiro, um novo “valor” é atribuído e confirmado naquele código digital, que fica registrado e é praticamente inalterável.

A tecnologia de blockchain parece simples, mas vem mudando radicalmente a maneira como o setor financeiro, inclusive os bancos, são organizados. E com toda a razão, especialistas afirmam que esta tecnologia poderá transformar completamente a nossa sociedade, como a adoção dos computadores pessoais, em 1975, e a internet, a partir de 1993.

Mas por que o blockchain é tão promissor? Principalmente porque resolve o problema da confiança entre as partes, proporcionando a rastreabilidade de todos os processos definidos na cadeia com uma visão descentralizada, e distribuídos entre pares iguais – sem um corpo central que valide mais do que a colaboração entre os envolvidos. Isto explica a razão de tantos acadêmicos e pesquisadores verem no blockchain algo tão revolucionário – ela atende uma das principais demandas da sociedade civil nos últimos anos: a necessidade de transparência e confiança nos processos.

Segundo o IDC (International Data Corporation), até o final de 2018, empresas do mundo todo investiram cerca de US$ 1.5 bilhões no desenvolvimento de projetos de blockchain para diversos setores. E de acordo com a consultoria McKinsey, até 2025 o novo ecossistema de negócios habilitado por blockchain gerará uma receita de aproximadamente US$ 50 trilhões. Quase 100 corporações globais já fazem parte de diferentes consórcios para o desenvolvimento de blockchain, como por exemplo, o Hyperledger.

E nesse contexto, onde a abertura de dados, e exige-se mais relevância nos serviços e decisões do setor público, a tecnologia de blockchain inaugura uma onda de novos serviços de eGovernment, ou Governo Digital. Até 2018, pelo menos 45 governos desenvolveram um total de 200 iniciativas explorando o uso de blockchain. A Índia, por exemplo, vem trabalhando na criação de uma rede chamada “IndiaChain”, para reduzir fraudes, garantir o cumprimento dos prazos de contratos e aumentar a transparência e a visibilidade dos contratos Estatais – além da economia de recursos para o Estado, a iniciativa promove o benefício social da transparência.

O Governo da Estônia tem sido o líder em iniciativas de eGovernment, e através do blockchain, permite que, com um único cartão de identificação, seus cidadãos acessem todos os seus registros médicos, votem, solicitem benefícios sociais e executem um total de 3.000 procedimentos de maneira completamente digital.

Outros países, como Quênia e Nigéria, já empregam blockchain para registrar e rastrear a venda de terras no país. Em iniciativa também nesta área, a Suécia está conduzindo projetos-piloto para realizar a compra e venda de propriedades, permitindo que todos os interessados ​​(banco, governo, vendedores, compradores, cartórios) sigam o processo e transações de blockchain para garantir a autenticidade e segurança do procedimento.

Até 2023, o mercado de blockchain no setor público deve saltar de US$ 162 milhões (2018), para US$ 3.5 bilhões. E graças a esta tecnologia, como mostram os exemplos já empregados, a confiança é devolvida aos cidadãos, e as órgãos centrais se transformam em mais um ator dentro dessa cadeia de transações entre iguais.

O blockchain democratiza e, paradoxalmente, traz a enorme possibilidade de humanização das instituições, tornando-as mais transparentes, acessíveis e visíveis para as pessoas, em pleno mundo marcado pela crise de confiança entre as partes.

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